Por que existem vinhos baratos e vinhos caros? (um guia para nunca mais esquecer)

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O preço dos vinhos sempre atrai a atenção dos curiosos de plantão. Há vinhos de R$ 50, há vinhos de R$ 250.000. A variação de preços nos vinhos é realmente absurda. Então, qual a diferença entre um vinho de supermercado e um vinho apenas para o paladar – aparentemente – dos milionários? Neste artigo vamos explicar para você como o preço de um vinho é definido, e por quê alguns são tão absurdamente caros.

Para começar a entender melhor a precificação de um vinho, a gente precisa entender que uma garrafa de vinho nada mais é do que um produto. Assim como um sapato ou uma roupa de marca, o vinho é semelhante a qualquer outro produto existente no mercado.

Fatores que influenciam no preço do vinho

Você deve ter em mente que o preço final do vinho é influenciado por vários fatores, como o custo de produção, quão raro o produto é, assim como o seu status e valor – no conceito de psicologia do consumidor, o status e valor de um produto é transferido para quem o consome. Lembre-se que valor é diferente de preço.

Então, na hora de planejar um produto, os fabricantes de vinhos têm a opção de criar seus vinhos específicos para consumidores de consumo de baixo custo ou a um custo mais alto. São nichos de mercado diferentes. Alguns miram em faturar com quantidade (muitos compradores, preço mais baixo), outros, com escassez (poucos compradores, preço mais alto).

IMPORTANTE – 5 fatores que fazem um vinho ficar caro

Muitos são os fatores que podem influenciar no preço do vinho. Alguns o produtor tem controle de escolha, outros não. Vamos ver os 5 fatores que mais influenciam no preço do vinho logo abaixo:

  • FATOR 1 – RENDIMENTOS MAIS BAIXOS E DE MAIOR QUALIDADE

Um produtor de vinho pode optar por fazer o seu vinho utilizando rendimentos mais baixos em seus vinhedos ou rendimentos mais altos (rendimento é uma expressão que é utilizada para avaliar a quantidade de uvas ou o volume de suco de uva produzido por área geográfica).

Isso ajuda a garantir a utilização de uvas saborosas e mais robustas. Por exemplo, em certo momento, o produtor pode optar por fazer o raleio de cachos de uvas, equilibrando o vigor da planta em relação à produção, assim, os cachos restantes poderão concentrar mais nutrientes. Essas uvas serão mais saborosas, mais equilibradas em teor de açúcares e acidez, o que em muitos casos não acontece quando temos vários cachos na mesma videira.

  • FATOR 2 – A UTILIZAÇÃO DE BARRICAS DE CARVALHO

Não adianta por vinhos de pouca estrutura em barricas de carvalho pensando que isso vai consertar o vinho em 100% e nem vinhos produzidos com uvas de baixa qualidade. Partindo do fato que apenas bons vinhos irão para barricas amadurecer, isso já é um indicativo de que o vinho que passa por barricas de carvalho terá preço superior. Um vinho, para ir para barrica de carvalho, e realmente “melhorar” , precisa ter sido bem cuidado no campo, durante todo o ciclo de crescimento da uva na nova safra. Como por exemplo, podas e controle de cachos por pés.

Quando chegamos na hora de escolher a barrica utilizada, outro preço impactará no custo final do vinho. Cada barriga, hoje, custa em torno de R$ 3.000 reais para o produtor (as mais simples). Dependendo da qualidade e origem (região da França, ou se francesa ou americana, por exemplo).

Cada barrica pode armazenar, em média, 300 garrafas de vinho. Diluindo o nosso valor hipotético de 3 mil reais pelas 300 garrafas, só neste processo seriam adicionados 10 reais a cada garrafa, aproximadamente.

  • FATOR 3 – A UTILIZAÇÃO DE COLHEITA MECÂNICA

A colheita manual ainda é utilizada na maioria dos locais de baixa produção, assim como vinhedos antigos que o sistema de condução não permite a mecanização, como alguns vinhedos da região de Champagne, por exemplo. Ela tem vantagens muito superiores as colheitas feitas por máquinas agrícolas.

Para você entender melhor, imagine que as uvas colhidas a mão têm o cuidado especial do agricultor. Ele corta o cacho, segura-o com as mãos e entrega-os em pequenos recipientes, de tamanho controlado, para que as uvas de cima não esmaguem as de baixo.

Esse cuidado é necessário porque a partir do momento que a uva tem a sua película rompida, o processo de fermentação pode iniciar. Se o dia for quente, mais rápido poderá ser, comprometendo a qualidade do nosso futuro vinho.

Os produtores que optam por máquinas agrícolas, que passam entre os vinhedos “chacoalhando” as vinhas e retirando as uvas sem grandes cuidados, porém rapidamente, tem esse processo prejudicado, porém não tem o custo do trabalho manual do agricultor. Máquinas fazem o trabalho muito mais rápido e valem a pena usá-las em grandes vinhedos.

  • FATOR 4 – CUSTOS NO ACABAMENTO

Uma simples rolha de cortiça pode significar de 1 à 3 dólares adicionais à garrafa de vinho. São quase 9 reais por rolha, em alguns casos. As de aglomerado de cortiça são mais baratas, as de cortiças maciças, que chamamos de nature, são mais caras.

Vinhos de consumo imediato são produzidos com tampas de roscas, já que não necessitam de envelhecimento. A rolha ajuda na micro-oxigenação para o vinho envelhecer com qualidade durante anos.

Outro detalhe que quase ninguém percebe são os lacres. Alguns são feitos de liga de metais, aquele lacre que protege a rolha. Outros, são feitos de plástico, infinitamente mais baratos. Os formatos e espessura do vidro da garrafa também farão com que o vinho fique mais caro. Além de que a maioria das garrafas necessitam também ser importadas.


O papel e tipo de impressão utilizados no rótulo também. Se o papel é grosso, poroso, se tem impressão em dourado ou prateado. Tudo conta no preço final do vinho.

  • FATOR 5 – LEI DA OFERTA E DA PROCURA

Quanto mais popular um vinho for, mais caro ele será. Este é um fator importante para entendermos uma grande pergunta do consumidor de vinhos nacional. Frequentemente eu ouço que “vinho brasileiro é muito caro“. Eu discordo da afirmação.

Há muito mais brasileiros procurando pelos vinhos Argentinos do que pelos Nacionais, logo, o vinho argentino chegará no Brasil com valor muito mais alto do que os próprios vinhos nacionais. Se pegarmos um vinho da mesma linha e qualidade Argentino e compararmos com um vinho da mesma linha e qualidade (mesmo estilo e processo produtivo), teremos um vinho argentino, em média, 3 vezes mais caro que o nacional.

Vinhos como Angélica Zapata, encontrados a R$230 reais no mercado brasileiro, não mostram metade do poder de um vinho nacional de R$ 230 reais – que são raríssimos, por sinal. A verdade é que se comprarmos este vinho na Argentina, a conversão ficará em torno de R$ 90 reais. Lá, ele não é tão especial quanto no Brasil – lei da oferta e da procura.

Marcas nacionais que investem pesado em marketing também terão vinhos mais caros, por ter maior demanda – caso da Casa Valduga, por exemplo. Não significa que os vinhos são ruins, mas que seu preço tem o custo da popularidade da marca embutido.

PARA LEMBRAR
A maioria, se não todos esses custos adicionais serão recuperados no preço de venda final estabelecido quando ele for vendido. Isso dá uma visão sobre as razões pelas quais um vinho de um produtor de qualidade venderá consistentemente a um preço mais elevado em comparação com o vinho produzido em grandes quantidades para os consumidores.

Devo comprar vinhos baratos ou caros?

Os vinhos que são de alta qualidade tipicamente são mais caros do que os vinhos de menor qualidade. Como já mencionado, os  tratos culturais aplicados à videira e processo de fabricação sofisticados são procedimentos de custo maior, portanto, os vinhos de qualidade não podem ser encontrados a baixo custo.

O que é preciso prestar atenção, é em qual estilo de vinho você gosta. Em certa viagem pela Serra Gaúcha, ouvi de uma guia na Cave Geisse a seguinte expressão: “gosto é uma coisa que não retrocede, a partir do momento que você experimenta algo melhor, você só quer o seguinte, nunca o anterior”. De fato, a partir do momento que experimentamos algo melhor do que conhecíamos, partimos para o seguinte. E esse é um resumo da vida de quem gosta de vinhos. A caça do próximo melhor vinho.

Dito isso, precisamos lembrar que gosto é gosto. Há pessoas que mesmo experimentando vinhos de excelente qualidade, preferem vinhos mais leves e simples, de menor estrutura. E há os que ainda não conseguem identificar e estão aprendendo as características de um vinho bem produzido.

“Melhor vinho do mundo custa 25 reais”

Outro tema que me deixa incomodado no mundo do vinho é a quantidade de matérias dizendo que “o melhor vinho do mundo custa R$ 25 reais”. Este é um daqueles golpes de marketing geniais. Faz-se um concurso, elege-se um vinho como o melhor do mundo, porém ninguém nunca bebeu todos os vinhos do mundo para dizer qual é o melhor, certo? As matérias são divulgadas para a imprensa, que replica até tornar-se “verdade”.

Além disso, esses vinhos concorrem dentro de categorias. Portanto, um vinho de R$ 25 reais raramente irá concorrer com vinhos complexos e mais elaborados acima de R$ 100 reais. São vinhos que chamamos, comumente, de “vinhos de entrada“. Vinhos que são leves e apresentam a característica básica daquela vinícola. No geral, todas as vinícolas tem seu vinho de entrada, um intermediário e o seu vinho premium.

Vinhos de entrada

Algumas podem ter vários vinhos dentro de cada categoria. Vários vinhos de entrada, vários intermediários e vários premium. O comum é: 1 de entrada, vários intermediários e 1 premium.

Embora o vinho que tenha preço alto tende a ser conhecido como sendo de melhor qualidade, qual é melhor só pode ser determinado pelo comprador, já que cada pessoa tem um gosto individual. Porém, lembre-se, para definir qual vinho você gosta, você tem que ter provado todos – inclusive os mais caros. Não vale decidir que gosta dos mais simples sem ter experimentado os mais complexos. E não vale gostar dos mais caros apenas porque custa mais.

As grandes safras e as raridades

Os vinhos de qualidade são frequentemente deixados para amadurecer por um longo período de tempo para que eles possam alcançar seu melhor e pleno potencial. Quando o tempo passa e o vinho em si é bebido pelos consumidores, as garrafas de vinho que são deixados em pequenos números tornam-se muito raras e valem uma grande quantidade de dinheiro, com o seu valor aumentando ano a ano (a cada nova safra que é lançada).

Os vinhos que também são raros e de grande despesa são os vinhos que são feitos em pequenas quantidades. O famoso Romanée Conti, por exemplo, ganha apenas 6 mil garrafas a cada ano. E pode chegar a R$ 265 mil reais cada, dependendo da safra.

Grandes safras de vinhos franceses importantes como Latour e Lafite podem chegar a milhares de reais. Isso porque são reconhecidamente safras de excelência, e também muito antigas. É como ter um item histórico em sua casa ou adega.

Um pedaço de história dentro da garrafa

Imagine, por exemplo, ter a chance de possuir um Château Latour da safra 1974 em mãos. É um pedaço da história que você segura, guardado dentro de uma garrafa. Há um valor maior que apenas o do produto. Estes itens frequentemente viram itens de colecionador, e podem ser usados inclusive como investimento. Como se fossem peças de ouro! Não é incomum entre milionários fazer investimentos em forma de garrafas históricas de safras francesas.

No final do dia, os preços do vinho variam por causa dos custos de produção, tempo e material utilizados para criá-los. Se a paixão de uma pessoa está em vinhos de qualidade, então ela pode estar disposta a pagar a raridade de uma garrafa cara, mas para alguém que está apenas em busca de uma garrafa para acompanhar uma refeição, garrafas menos caras podem ser mais adequadas. Tudo se resume ao gosto individual e ao seu poder de compra.

Como um vinho barato pode se tornar caro?

Imagine um tipo de vinho que foi produzido em grande escala no de 1915, para satisfazer o gosto de uma grande quantidade de consumidores. Com o passar do tempo esse vinho obviamente foi desaparecendo até sobrar apenas alguns exemplares, é neste momento que o preço desse vinho atinge as alturas. O mesmo princípio pode ser aplicado para os vinhos fabricados hoje em dia. Um vinho barato hoje pode custar muito em algumas décadas.

Obviamente, houve um período no tempo em que os vinhos baratos também tinham qualidade suficiente para segurar por dezenas de anos, envelhecendo com vigor. Atualmente, esta prática é quase inexistente. O mercado aprendeu a produzir exatamente o tipo de vinho correto para cada nicho – ser guardado ou ser consumido na sequência.

Conclusão

Agora você sabe como o preço de um vinho é definido. Vários fatores são levados em conta até um preço ser alcançado, mas no geral, como para qualquer outro produto, a lei da oferta e demanda rege a coisa toda.

Sobre o Autor

Finalista da copa Vinhos do Brasil 2014 realizada pelo IBRAVIN. Colaborador da revista Clube do Champagne. Wine-junkie certificado. Passo meus dias entre vinhedos, escritórios e mesas de bar. Tin-tin!

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