Espumante ou Champanhe? Entenda as diferenças!

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Todo Champanhe é Espumante, mas nem todo Espumante é Champanhe. Nesta postagem, vamos conhecer melhor esta região da França. O que você vai aprender?

VAMOS APRENDER NESTE ARTIGO:

  • Sub-regiões de Champagne;
  • Uvas permitidas na produção de Champagne;
  • Denominações de Origem da região de Champagne;
  • Tipos de Champagne quanto a níveis de açucar (Brut Nature, Extra Brut, Brut, Extra Dry, Sec, Demi-sec, Doux);
  • Tipos de Champagne quando a categorias (NM, RM, CM, RC, SR, ND e MA).

Mas agora, vamos voltar a nossa pergunta inicial. Então nem todo espumante é Champagne?

Quando o assunto é vinho, vinificação e viticultura, o primeiro lugar que me vem a cabeça é certamente a França.

Sinônimo de qualidade e excelência na produção de vinhos, a França é o berço das leis criadas para viticultura e produção de vinhos.

O sistema de Denominação conhecido na França, AOC – Appelation d’Origine Contrôlée – foi criado em 1935 pelo INAO – Institut national de l’origine et de la qualité – em resposta as fraudes que ocorriam na indústria do vinho na época.

Muitos produtores de vinhos de baixa qualidade, ou até mesmo de outros países, vendiam seus vinhos como se fossem de renomadas regiões Francesas. Essas fraudes na indústria se deram depois de uma grande escassez de vinhos no mercado, causada pela filoxera no final do século 17.

Mas o que isso tem a ver com Espumante e Champanhe?

Champanhe é uma região no noroeste da França, que ficou conhecida como a primeira região no mundo a produzir vinhos espumantes.

A criação de espumante é muitas vezes ligada ao nome do monge Dom Pérignon, o que não é necessariamente verdade.

Dom Pérignon contribuiu imensamente para o méthode Champenoise ou método tradicional que conhecemos hoje, mas a criação de espumante se deu devido a problemas climáticos na região, ou seja, não foi produzido intencionalmente.

Até o século 18, a região produzia vinhos finos em tentativa de competir com os vinhos finos da Borgonha.

“A males que vem para o bem”

Como o acidente aconteceu?

A região de Champanhe tem um inverno muito rigoroso, e durante o outono com a queda de temperatura, a fermentação do vinho as vezes parava acidentalmente, o enólogo então achando que a fermentação tinha terminado, engarrafava o vinho com o fermento e açúcar ainda presentes do liquido final.

Com a chegada da primavera e crescentes temperaturas, o fermento acordava do estado dormente na garrafa, causando uma segunda fermentação dentro da garrafa, e o dióxido de carbono (gás) produzido pelo fermento que converte açúcar em álcool ficava preso na garrafa.

Isso era considerado um tremendo defeito na produção do vinho, e como as garrafas não eram próprias para esse tipo de reação, muitas vezes explodiam, e isso as vezes causava a perda de uma produção inteira.

Durante aquele período, os produtores tentaram diminuir a probabilidade dessa segunda fermentação na garrafa, em vez de incentivá-la.

Produtores no século 18 ainda tentavam produzir vinhos finos que podiam competir com a qualidade dos vinhos da Borgonha. Mas em 1724 a palavra “mousseux” – que significa espumante – aparecia em conotação com os vinhos de Champanhe.

E após a fabricação de garrafas mais fortes, alguns produtores passaram a produzir espumante intencionalmente.

Porém, o resultado não era sempre positivo. Algumas garrafas continuavam a explodir, outras não apresentavam o gás necessário, e o processo de produção de espumante ainda era um mistério, muitos produtores associavam o processo com as fases da lua.

Com a fundação das famosas “casas” de Champanhe em meados do século 18, como Ruinart, Taittinger, Moët et Chandon, Delamotte and Veuve Clicquot Ponsardin, a produção de Champanhe espumante permanecia problemática e imprecisa até o início do século 19.

A partir do século 19, aprimoramentos no método de produção e o avanço da ciência proporcionaram um grande salto para os vinhos espumantes.

Surgiram então nomes como Madame Barbe-Nicole Ponsardin, e a Veuve (viúva) Clicquot, que era responsável pela casa que até hoje leva seu nome.

Sob o comando da viúva Clicquot, a casa foi pioneira no processo de “remuage” – um procedimento que permite que o sedimento de fermento seja facilmente removido da garrafa durante o processo de “degorgement” – extração do fermento após a segunda fermentação.

Jean-Antoine Chaptal, químico francês, identificou a relação entre açúcar e fermento e junto com o farmacêutico André François, eles conseguiram mensurar a quantidade precisa de fermento e açúcar para produzir o dióxido de carbono necessário na produção de espumante, sem causar a explosão da garrafa.

Parece pouco, mas isso permitiu com que as casas de Champanhe produzissem espumantes com melhor precisão e sem desperdícios.

Com mais estudos e desenvolvimento de garrafas mais fortes e rolhas adequadas, a região de Champanhe cresceu rapidamente, se tornando uma indústria conhecida internacionalmente.

De uma produção de 300 mil garrafas em 1800 passou a produzir 36 milhões em 1883.

Os materiais de marketing na época da propaganda de cartazes, eram extravagantes e chamativos para o espumante produzido em Champanhe.

Esses vinhos estavam ligados a mulheres, lazer, esporte, história e todas as coisas comemorativas. Champanhe e a imagem de Champanhe eram, e ainda são, inseparáveis.

A chegada da Filoxera e o impacto em Champagne

A filoxera mudou a história do vinho no mundo, dizimando vinhedos na Europa.Quase cem anos de crescimento e prestigio em Champanhe terminaria com a chegada da filoxera na Europa no final do século 19, seguido pelo mercado de fraudes, e as guerras mundiais no século 20.

Na segunda parte do século 20, a popularidade de Champanhe voltou a crescer, através do aumento de vendas, incorporação, fusão e aquisição de casas e produtores, as famosas casas de Champanhe tiveram um crescimento exponencial na época.

Com a inauguração da safra de 1921 chamada “Dom Pérignon” da casa Moët et Chandon, outras casas passaram a lançar a chamada “tête de cuvée” – os melhores espumantes produzidos pelas casas, normalmente com o ano da safra no rótulo.

Hoje, Champanhe produz apenas 1 de cada 12 garrafas de espumante no mercado mundial.

Em 2016 foram registrados 15.800 viticultores das uvas permitidas em Champanhe e mais de 300 casas que produziram 306 milhões de garrafas, exportadas mundialmente. O recorde foi em 2007 quando foram produzidas 338 milhões de garrafas.

Voltando a criação do Sistema de Denominação das regiões francesas, criada em 1935 pela INAO.

Em 1936 Champanhe foi consagrada como AOC, que determina o método de produção, tipos de uvas plantadas na região, tempo de maturação, etc.

Champanhe é a região mais rigorosa do mundo em relação ao que é permitido na produção de espumantes.

O que para alguns pode parecer exagero, esse sistema garante qualidade e excelência do produto. O que é mais importante nisso tudo é que para ser Champanhe, o vinho precisa ser mais do que espumante, precisa vir da região de Champanhe, no noroeste da França.

Essa é a lei básica da legislação do vinho em Champanhe. Por isso eu repito, todo Champanhe é espumante, mas nem todo Espumante é Champanhe!

E no Brasil, como está a produção de espumante?

No Brasil, vemos muito o famoso Chandon, a maioria produzido em Napa, na Califórnia, ou seja, não é Champanhe.

O espumante Chandon também é produzido no Brasil, em Garibaldo, Serra Gaúcha, ao lado de Bento Gonçalves. Ali, fazem apenas espumantes pelo método Charmat, não o Champenoise.

Pousada Don Giovanni

Apesar de pertencer a casa francesa Moët et Chandon, localizada em Champanhe, o espumante não é produzido na região francesa, e sendo assim, não pode receber tal nome de acordo com a lei estabelecida pelo AOC.

Ainda assim, existem alguns produtores no mundo que produzem espumantes, e o chamam de Champanhe, esses vinhos são banidos na União Europeia. No Brasil 99% dos espumantes são chamados de “espumantes” e somos reconhecidos mundialmente pela qualidade desse tipo de vinho.

Existem vários tipos de espumantes, na Itália têm Prosecco e Asti, na Espanha tem Cava, na Alemanha tem Sekt, e até mesmo em outras regiões na França é produzido espumante, Vouvray, Alsace, Borgonha produzem excelentes espumantes, mas nenhum pode ser chamado de Champanhe. Estes são chamados de “Crémant”.

O que diferencia um do outro é o método como é feito, existem vários métodos de produção de espumante e você pode aprender um pouco mais aqui.

Curiosidades sobre a região de Champanhe

A região de Champanhe não produz somente espumante, ainda hoje se produz vinhos finos tintos, brancos e rosé.

Uvas Permitidas:

  • Uvas primarias: Pinot Noir, Meunier (Pinot), Chardonnay
  • Uvas secundarias: Pinot Blanc, Pinot Gris (Fromenteau), Arbane, Petit Meslier

  

Denominações da Região de Champanhe:

  1. Rosé de Riceys (AOC 1947)
    Somente Rosé de 100% Pinot Noir
  1. Coteaux Champenois (AOC 1936)
    Vinhos finos vermelhos, brancos e rosés das 7 uvas permitidas na região.
  1. Champagne (AOC 1936) (Onde realmente se produz espumante)
    Somente Espumantes Brancos e Rosés

As 5 principais communes de Champagne AOC e suas uvas:

  1. Montagne de Reims: Principalmente Pinot Noir.
    9 Grand Crus Villages
  1. Vallée de la Marne: Principalmente Meunier.
    2 Grand Crus Villages
  1. Côte des Blancs: A melhor região em Champanhe para Chardonnay
    6 Grand Crus Villages
  1. Côte de Sézanne
    Principalmente Chardonnay
  1. Côte des Bars (Aube)
    Principalmente Pinot Noir

Níveis de Açúcar permitidos em Champanhe

Brut, Demi-sec, Moscatel, Extra Brut? Sempre surge a dúvida, certo? Esta é a tabela dos Champagnes, que são diferentes dos Espumantes nacionais.

DesignaçãoAçucar Residual
Brut Nature/Non-Dosé0-3 gramas por litro
Extra Brut0-6 gramas por litro
Brut0-12 gramas por litro
Extra Dry12-17 gramas por litro
Sec17-32 gramas por litro
Demi-Sec32-50 gramas por litro
Doux50+ gramas por litro

 

Tipos de produtores de Champanhe e como identificar no rótulo

NM (Négociant Manipulant)
Uma casa que compra uvas de outros viticultores. Algumas casas NM são donas de suas próprias vinícolas e outras não possuem vinícolas alguma. As grandes casas de Champanhe com presença internacional pertencem a essa categoria, Moët et Chandon, Louis Roederer, Veuve Clicquot Ponsardin, Billecart-Salmon, Lanson, Taittinger, Pol Roger, Perrier-Jouët, Mumm e Laurent-Perrier.

RM (Récoltant Manipulant)
Viticultor e produtor, dono da vinícola e produtor de seus próprios espumantes, 95% das uvas devem vir diretamente da vinícola pro produtor.

CM (Coopérative Manipulant)
Viticultores que fazem parte de uma cooperativa que produz uma marca de espumante.

RC (Récoltant Coopérateur)
Viticultores na qual as uvas são vinificadas e o vinho produzido em uma cooperativa, mas vende com sua própria marca.

SR (Société de Récoltants)
Uma firma, não uma cooperativa, criado por uma união de viticultores frequentemente relacionados, que compartilham recursos para fazer seus vinhos e coletivamente comercializar várias marcas.

ND (Négociant Distributeur)
Uma empresa intermediária que distribui Champanhe e o produziu.

MA (Marque d’Acheteur)
A marca de um comprador, muitas vezes uma grande rede de supermercados ou restaurante, que compra Champanhe e vende sob seu próprio rótulo. O Tesco na Inglaterra tem sua própria marca de Champanhe.

Outros termos importantes na hora de comprar Champanhe

  • Blanc de Blanc: Champanhe feito exclusivamente com Chardonnay;
  • Blanc de Noirs: Champanhe feito exclusivamente com uvas tintas;
  • Non-Vintage (NV): Champanhe que contêm vinhos de mais de um ano (a maioria da produção de champanhe é NV);
  • Reserve: Usado muito em rótulos, mas sem significado algum;
  • Vintage: Espumante feito com uvas de uma safra especifica;
  • Prestige Cuvee: O fino e mais caro oferecido por uma casa. Normalmente com safra datada e maturado por vários anos antes de lançamento no mercado. Exemplos são; Dom Pérignon da Moët et Chandon, Cristal da Louis Roederer, Comtes de Champagne da Taittinger, Cuvee Sir Winston Churchil da Pol Roger;
  • Special Club Prestige Cuvee: RM’s que se juntaram para promover seus prestige cuvees através de uma identificação igual para todos RM’s.

Grandes Safras: 1975, 1990, 1996, 2002, 2004, 2008.

Curiosidade sobre o sistema AOC

O sistema de denominação francês foi referencia para outros países da união europeia, esse sistema garante que o vinho de determinada região mantenha sua qualidade e excelência.

Em português conhecido como DOC – Denominação de Origem Controlada.

Por isso os vinhos franceses em sua maioria não especificam no rótulo o tipo de uva utilizado na produção do vinho, como é feito no Estados Unidos, Austrália, Chile, Argentina, Brasil e outros países do “Novo Mundo”.

Nos rótulos franceses você encontra a região de onde o vinho é produzido e sua específica AOC ou AOP – União Europeia – o que para muitos consumidores é complicado de entender, mas isso é um tópico para outro texto, e eu prometo escrever sobre o assunto no futuro.

Ainda que seja importante lembrar que no Brasil também temos a Denominação de Origem para a Merlot no Vale dos Vinhedos e a Indicação de Procedência para espumantes e Pinot Noir em Pinto Bandeira.

A Indicação de Procedência é o passo anterior a Denominação de Origem. São Joaquim, em SC, também inicia o mesmo processo para seus vinhos.

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Sobre o Autor

Thierry Alcantara-Stewart atualmente mora em Toronto, onde se formou em hotelaria pela renomada George Brown College. Gerente de Alimentos e Bebidas no Marriott International, possui WSET Level 3 e atualmente esta se preparando para o exame certificado do Court of Master Sommeliers.

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