Hoje eu vou contar pra vocês uma história muito interessante, de como os Europeus levaram, no século XIX, um presente de grego das Américas em suas navegações – a filoxera, que destruiu a indústria do vinho francesa na época, mudando todo o cenário vinícola até os dias de hoje.

Por exemplo, você sabia que a maioria dos vinhos franceses que existem hoje provém de plantas de enxertos? Isso significa que a raiz da vinha é de uma espécie, e a planta em si (a parte de cima), de outra.

Você deve estar se perguntando no que tudo isso influencia no vinho que está na sua mesa, certo? Você vai descobrir no final da postagem.

A indústria do vinho como você conhece hoje só é possível por causa dessa maravilha simples que é o enxerto. Exatamente igual àquele que a sua vó provavelmente já fez com flores no quintal de casa.

O que é Vitis Vinífera e o que é Vitis Labrusca?

Pra entender melhor essa história, vocês precisam saber a diferença das duas, entre a Vitis Vinífera e as Vitis Lambrusca. A primeira é a espécie de videira de onde saem uvas para a produção de vinhos finos, como Cabernet Sauvignon, Merlot e Carmenere.

A segunda dá uvas excelentes para sucos e para serem consumidas in natura, como frutas mesmo. É importante também saber que as Vitis Viníferas tem origem europeia e a Vitis Labrusca, americana.

A Vitis Labrusca (americana) também é utilizada, no Brasil, para a produção de Vinhos de Mesa. Os populares garrafões de vinho. Tanto tinto, quanto branco. Suave ou seco.

Agora sim, vamos lá

Após as grandes navegações, era comum os europeus levarem para a Europa espécies de animais e de plantas que encontravam por aqui. No meio de tudo isso, levaram também a Vitis Labrusca, uma espécie de uva americana, mais especificamente da América do Norte, só não sabiam que estavam levando junto a filoxera.

A Vitis Lambrusca era resistente a uma praga, mas embora fosse resistente, era portadora da mesma, ou seja, não sofria da doença filoxera, embora abrigasse os bichinhos responsáveis por ela.

Até então, o continente Europeu estava livre da filoxera, alguns biólogos dizem que a coisa ficou complicada mesmo depois dos barcos a vapor – as navegações mais rápidas faziam com que os bichinhos chegassem ainda vivos a Europa, mesmo com pouco contato com a terra – eles ficam na raiz da planta.

Por volta de 1863, iniciou-se uma grande infestação da praga e começaram-se as perdas. Os números falam por si:

  • Em 15 anos, 40% da produção de vinhos da França foi destruída, levando muitos produtores à falência. A causa ainda era desconhecida, mas as videiras começavam a murchar sem causa aparente.
  • A praga só foi realmente descoberta 5 anos depois, em 1868.
  • A indústria de vinhos francesa demorou mais de 40 anos para se recuperar.
  • Desesperados para entender e acabar com a praga, o governo francês ofereceu uma recompensa de 320.000 Francos para quem descobrisse a cura para a praga.

A solução veio da origem do problema: a Vitis Labrusca

Para resolver o problema, biólogos fizeram enxerto das duas espécies, sendo assim, as uvas passaram a ter a raiz das vitis lambrusca e a parte de cima das vitis viníferas.

Tal feito foi comprovado eficiente entre 1870 e 1880, embora que com muita descrença no início. Muita gente defendia a química como única solução para a praga.

O que é Filoxera

Até hoje ainda existem enólogos que defendem que o verdadeiro terroir só pode ser percebidos em pés-francos, que são os pés de Vitis Viníferas sem o enxerto da raiz das americanas/labrusca.

Leo Laliman, um dos vitivinicultores franceses responsáveis pela ideia do enxerto tentou reaver os 320.000 Francos oferecidos pelo governo pra quem encontrasse a cura para a praga, porém sem sucesso, autoridades disseram que o enxerto não era a cura, já que ele só deixava a planta resistente a filoxera.

Sendo assim, a maioria das plantas encontradas hoje na Europa é de porta-enxertos com raízes americanas.

Ou seja, o vinho que você consome provavelmente vem desse tipo de planta. Por aqui o cenário é um pouco diferente, há quem diga que 98% dos pés de Mendoza sejam de pé-franco. Infelizmente não consegui encontrar a resposta para afirmar pra vocês se isso é verdade.

Existe diferença dos vinhos de pé-franco e de enxerto?

Em termos de vitivinicultura, a diferença está apenas no vigor das plantas. Aí você pensa que quanto maior vigor, melhor o resultado, certo? Nem sempre.

Aqui entra a qualidade. As raízes americanas vão mais além, em profundidade, trazendo maior vigor. Por exemplo, cachos de uvas da mesma variedade, quando em pé franco, trazem apenas 1/5 do rendimento de quanto plantados com enxerto.

Os cachos dão menos uvas, consequentemente o vinho terá características diferentes. Até o tamanho da folha pode influenciar no resultado final do vinho.

Alguns especialistas afirmam que a Carmenère quase sumiu da França por causa do enxerto. É uma uva muito sensível ao desavinho – perda de cachos durante a floração – o que fez com que este tipo de uva não tivesse sido beneficiado com o vigor que a raiz dos enxertos o traziam.

Sobre a produção de Carmenère no Chile, alguns dizem que deu certo, pois o sistema de rega era a inundação, que não deixava que a filoxera destruísse as vinhas.

Outros dizem que é o terreno chileno que não tem as condições que o bichinho gosta. Como tudo no mundo do vinho, os chamados vinhos de pé-franco ou pré-filoxera também tem seu mercado.

Talvez o mais conhecido deles seja o Luis Pato Quinta do Ribeirinho Pé Franco, de Portugal. A safra 2009 custa em média R$ 900,00 a garrafa.

E aqui no Novo Mundo, a tal filoxera afetou em algo?

O Chile tem parte importante nessa história toda. Com os estragos que a filoxera provocou na Europa e principalmente na França, onde vocês acham que eles vieram buscar plantas saudáveis? Sim, aqui.

O Chile havia iniciado a importação de mudas europeias em 1850, pouco antes da praga da filoxera atacar os lados de lá, ou seja, as plantas que aqui estavam ainda eram saudáveis.

Na década de 1870 o Chile já exportava vinhos e mudas de Vitis Viníferas para que a Europa pudesse fazer seu processo de recuperação.

E atualmente, como anda?

Até hoje não há um agrotóxico para a filoxera, sendo que a única solução é o enxerto. Para os que ainda tentam fazer a plantação de pé-franco, sobra a escolha de terrenos arenosos para diminuir as chances de infestação, embora ainda continue exposta a ocorrência.

A única variedade de uva europeia que se mostrou resistente a filoxera é a Assyrtiko, encontrada na ilha de Santorini, na Grécia; contudo, acredita-se que a resistência acontece por causa da presença de cinzas vulcânicas no solo onde é cultivada, e não da planta em si.

Eu, particularmente, acho esse assunto incrível. Acho toda a história da filoxera interessante, há certa ironia em levar as mudas americanas e vir buscar as chilenas para reconstruir a destruição provocada pela exploração da própria América.

E você, o que acha disso tudo? Ficou com dúvidas? Pode comentar aqui embaixo ou mandar e-mail! marcos@vemdauva.com.br.

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6 Comentários. Deixe novo

  • Marcos Marcon
    Sérgio Bandeira
    14 de julho de 2019 04:14

    Olá! Vi no livro A Bíblia do Vinho de Karen McKenil que a filoxera não dá no Chile porque o terreno tem muito ferro (sulfato ferroso) e não sobre a inundação devido ao derretimento do gelo da Cordilheira dos Andes. Outra coisa: Por que num enxerto com a labrusca (cavalo) dá uma produção 5 vezes maior do que a videira quando em pé-franco ? E qual a interferência do tamanho da folha sobre a uva (matéria prima do vinho) se o que importa é a “mineralização” do terreno junto com outros fatores do terroir ? Tenho seis livros sobre o mundo dos Vinhos e não li nada a esse respeito. Grato e aguardo
    14jul2019 – Recife/PE

    Responder
    • Oi Sérgio! Vavmos lá, várias perguntas em uma. rs.

      1) De fato, a filoxera não não tinha chance no Chile exatamente pelas condições de terreno (tipo de solo) e irrigação. São os dois fatores mais difundidos pela literatura ainda hoje.

      2) Quanto ao enxerto com a labrusca produzir mais, da-se pelo fato de que esses porta enxertos estão acostumados a ter um fluxo maior de nutrientes, afinal de contas, a Labrusca dá bagos bem mais volumosos que as vitis vinifera, esses caules estão preparados para levar bem mais nutrientes até as gemas, frutos e folhas. Então precisou-se adaptar os clones exatos para cada tipo de enxerto, afinal de contas, de nada adianta uma uva enxertada produzindo cachos grandes, porém de pouca concentração de nutrientes e muita água.

      3) Essa pergunta tem muitas variáveis:

      – Já o tamanho da folha influencia por ter uma maior área de captação de sol, que vai influenciar na fotossíntese, fazendo com que os fruto recebam menos ou mais nutrientes que o necessário.

      – Além disso, o que a planta suga de nutrientes da terra serve para nutrir tanto os frutos quanto folhas, logo, se tivermos muitas folhas, elas podem captar os nutrientes necessários para os frutos. É por isso que em um vinhedo em época de brotação é necessário fazer, comumente, podas preventivas, para que os nutrientes concentrem-se nos frutos e não em folhas.

      – Também é válido lembrar que quanto mais folhas, menos sol atinge os bagos e o chão – um elemento necessário para um vinhedo de produção de qualidade. Muita sombra irá criar o que chamamos de “microclima” diferente de um vinhedo mais espaçado e com mais sol atingindo o chão. Enfim, a quantidade e a distribuição das folhas no espaço modificam o microclima no interior do dossel vegetativo e isso influencia diretamente no micro-clima, que influenciará na produção de uma boa uva. Nosso artigo sobre Terroir disseca melhor esse assunto, acho que você irá gostar: https://www.vemdauva.com.br/o-que-e-terroir/

      Pra complementar a sua leitura, indico também nosso artigo sobre sistemas de condução que explora também a questão do sol em cada tipo de sistema de condução e como folhas e luz solar influencia no cultivo de uvas excelentes para vinhos excelentes: https://www.vemdauva.com.br/como-e-um-vinhedo-preco-e-qualidade-do-vinho/

      Quanto a uma boa indicação de livro para leitura que vai te ajudar muito nessas suas questões, indico algo não voltado ao vinho, mas ao plantio de vinhas. O melhor, pra mim, e utilizado nos cursos de enologia aqui no Brasil é o do Eduardo Giovannini – Produção de Uvas para Vinhos e Suco de Mesa: https://www.estantevirtual.com.br/livros/eduardo-giovannini/producao-de-uvas-para-vinho-suco-e-mesa/999983442

      Eu acredito que pra entender essa parte do vinho, nós precisamos desfocar um pouco do vinho em si e partir para entender um pouco de viticultura. Essa é a base principal de todo bom vinho. Já dizia o sábio: “bendita seja a mão que planta e colhe a uva”. Eu acredito fielmente que um bom vinho nasce no vinhedo, por isso acho importante estudar um pouco do plantio de uvas pra entender melhor essa que é uma questão bastante ampla.

      Desculpa a demora em te responder, mas sabia que teria que o fazer com tempo 🙂
      Sérgio, espero ter conseguido esclarecer um pouco. Escrevi meio correndo, então, se quiseres que eu esclareça melhor algum ponto, só perguntar de novo! 🙂

      Responder
  • Marcos Marcon
    ana paula porcel
    9 de maio de 2019 09:55

    NA VERDADE TODA ESSA HISTÓRIA DE CERTA FORMA DEMOSNTRA A NECESSIDADE DE UNIAO ENTRE OS CONTINETES E QUE NAO SOMOS UNIPONTENTES, UMA HORA IREMOS PRECISAR DO NOSSO VIZINHO… E QUE HOUVE SIM UMA IRONIA DO DESTINO, OU FATALIDADE CADA UM TERÁ SEU PONTO DE VISTA, MAS A HISTÓRIA EM SI É FASCINANTE

    Responder
    • Marcos Marcon
      Marcos Marcon
      13 de maio de 2019 02:37

      Quando estudei sobre a Filoxera tive exatamente o mesmo pensamento que o seu, tanto que foi um dos primeiros artigos do Vem da Uva, é um história que fascina, não? Concordo com você, no fim, somos todos um.

      Responder
  • Me lembrou quando estudei enologia no curso de gastronomia …amava a matéria.

    Responder

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